
A banalização da greve como instrumento de luta interessa a quem?
Ontem, dia 15 de março, numa assembléia de pouco mais de 200 técnico-administrativos, a AssufrgS decidiu apoiar o indicativo de greve na Plenária da FASUBRA que ocorrerá em Brasília no dia 26 de março. A pauta é a campanha salarial 2011 e a MP 520 que cria a empresa brasileira de Hospitais para gerenciar os Hospitais Universitários aos moldes do que já acontece no Hospital de Clínicas.
Os ultimos sinais do governo Dilma são de retrocesso, aumentando os juros e deixando de atender as reivindicações sindicais. É hora de pressionar o governo para que avance no rumo de um projeto de desenvolvimento com valorização dos trabalhadores. Isso é consenso. No entanto, pressão de fato a gente faz com mobilização real.
A majoritária da AssufrgS, liderada pelo grupo que se organiza nacionalmente sob o nome Vamos à Luta, tem na nossa opinião uma concepção equivocada de movimento. Essa concepção infelizmente é maioria na FASUBRA hoje. Parte do princípio de que é possível fazer luta sem a presença massiva da categoria. Não é de hoje que temos assembléias esvaziadas, com no máximo 60 pessoas, numa categoria que hoje beira ao 3 mil técnicos. No entanto, para o Vamos à Luta, isso parece irrelevante, já que aqueles que comparecem são os que interessam. porque são os "de luta". O "resto", que é maioria, "não é de luta", é "traidor", etc.
É um equívoco dizer que o esvaziamento do movimento sindical significa que os técnicos em sua maioria se alienaram, ou tornaram-se “pelêgos”. Os tempos mudaram, mas a AssufrgS ficou presa ao passado, e essa falta de renovação foi distanciando a direção da base. A maioria dos técnicos tem dificuldades de se sentir representados pela AssufrgS, porque seu discurso majoritário é praticamente mesmo dos duros tempos do governo FHC.
A universidade mudou nesses últimos oito anos, graças a inestimável contribuição da luta dos técnicos, mas também porque o governo Lula teve uma orientação diferente de FHC. Os recursos para as Universidades praticamente dobraram, tivemos vários avanços com a conquista de um novo Plano de Carreira, milhares de novos concursos foram feitos, as cotas foram aprovadas em grande parte das IES. O Vamos à Luta não percebeu isso, e faz hoje um discurso anacrônico, que não tem repercussão na realidade concreta da maioria dos técnicos e da sociedade.
O reflexo desse discurso atrasado é a falta de mobilização. Porque os técnicos vão participar de algo que não reflete sua realidade? Tem muito técnico que atua em outros espaços hoje porque não se sente representado na AssufrgS. São técnicos que interferem na gestão, na pesquisa, na extensão, com uma visão avançada, que tentam ganhar a Universidade para uma perspectiva mais comprometida com a classe trabalhadora, com o desenvolvimento do país. Esses técnicos não encontram espaço na AssufrgS. Porque há tempos a AssufrgS deixou de querer discutir e interferir nos rumos da Universidade e do país que queremos.
O que interessa hoje para o Vamos à Luta é o micro-debate da carreira, do reposicionamento de cargos específicos. A AssufrgS está presa no mais rebaixado corporativismo, que não consegue nem unificar a própria categoria, e nem negociar alianças da categoria com outras do serviço público, estudantes e sociedade.
Dentro desse cenário de desmobilização provocado pelo discurso anacrônico da direção majoritária, a aprovação do indicativo de greve foi uma decisão precipitada. Mesmo dentro da direção não existe motivação para a greve. Vamos às unidades participar da mobilização, debater, convidar, ouvir o que cada técnico e técnica tem a dizer. Mas será difícil convencer a adesão, porque a AssufrgS está muito desacreditada entre os colegas.
Trata-se de afirmar que existe diferença, que tem gente dentro da AssufrgS que não pensa de acordo com a maioria da direção. Para que a AssufrgS mude, dialogue mais com os técnicos, se renove, incorporando inclusive as pautas dos novos colegas que entraram nos últimos concursos, será necessário muito trabalho, muita militância. Eu acredito. Sou apaixonado pela minha Universidade, pelo meu país, por esse povo lindo que vive nessa terra. E acredito que melhores dias virão para nossa entidade, dias de maior pluralidade, democracia, criatividade, interferência real nos rumos da Universidade e do país.
Tudo começa com a decidida postura de não se conformar com a realidade atual e lutar para mudá-la.
Publicado no Blog Igor de Fato
Igor Corrêa Pereira
Oposição a majoritária da direção da AssufrgS
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